28/01/2019
Para além da reforma da previdência

Os problemas existentes parecem bem diagnosticados pelas equipes do governo. Mas seis meses se passaram com um avanço ainda tímido em relação às soluções, que vão precisar ainda de sua etapa de negociação com a sociedade. Há grupos que perdem e ganham com as mudanças e as negociações não são triviais e rápidas num país tão patriarcal e patrimonialista como o Brasil.

A Reforma da Previdência segue seu caminho normal para a aprovação, mesmo fora dos cronogramas e valores otimistas divulgados pelos líderes desse projeto.

O fato dela não ter sido concluída na semana passada era previsível diante de um governo sem coordenação política, que mesmo tendo na etapa final de votação trabalhado surpreendentemente melhor que vinha se desempenhando, ainda está longe de poder ser considerado com razoável capacidade nesse campo.

Destaque para a atuação do governo foi a chuva de emendas e decretos beneficiando parlamentares e municípios com verbas jorrando no Diário Oficial da última semana. O custo político e econômico desse ato é risível diante dos ganhos com a reforma, mas mesmo assim se chegou a temer que a ideologia falasse mais alto e não houvesse essa negociação.

Mas foi a fala do presidente Jair Bolsonaro sobre nomear o ministro “terrivelmente evangélico” para o STF foi o lance político mais bem feito. Deu conforto à bancada mais resistente a aprovar a reforma, os evangélicos, pela proximidade eleitoral com uma população que terá perdas significativas com a reforma.

O sinal mais importante de que a reforma segue foi a expressiva votação ao texto base, 379 favoráveis (o que significa perto de 3/4 do votos), mesmo com a reforma não tendo na sociedade uma aceitação tão ampla (segundo o mais recente Datafolha, não chega a metade da população).

O número tende a facilitar a aprovação no Senado, a etapa que realmente importa, o que não acontecerá nem rápido e nem como referendo ao que vier da Câmara, como desejam os que trabalham pelo ajuste.

Além da necessidade de protagonismo dos senadores, o que é do jogo político, os acordos feitos na Câmara vão ter que ser executados para que o andamento siga dentro do razoável. Ter a reforma aprovada próximo ao fim deste ano é ainda a perspectiva mais realista.

E não é de todo mau que o tempo seja esse. É prazo suficiente para que as áreas executivas do governo tirem do papel suas ideias sobre como mudar a vida prática do país e coloque-as em execução.

Como esse Podcast já alertou, não é factível acreditar que caminhões de dinheiro vão chegar aqui para substituir os recursos que serão tirados dos trabalhadores devido a alíquotas maiores de contribuição previdenciária, sem que haja projetos adequados, principalmente no setor de infraestrutura, e condições econômicas e jurídicas seguras para os investimentos.

Os problemas existentes parecem bem diagnosticados pelas equipes do governo. Mas seis meses se passaram com um avanço ainda tímido em relação às soluções, que vão precisar ainda de sua etapa de negociação com a sociedade. Há grupos que perdem e ganham com as mudanças e as negociações não são triviais e rápidas num país tão patriarcal e patrimonialista como o Brasil.

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